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A Sabedoria do Amor
Nos ocuparemos do amor, mas não o definiremos nem o mencionaremos por seu nome, porque as palavras são apenas metáforas, obstruem a compreensão ao criar a ilusão da compreensão; limitam ao produzir o engano que o mistério foi capturado. Não são senão uma representação do autêntico.
Ray Grigg
Os amantes vivem o amor; estão imersos nele como a chuva está no chover e o sorriso no sorrir; mas não podem explicá-lo, porque o são. O mesmo acontece com o Tao: não podemos explicá-lo porque o somos. Mas nem o amor nem o Tao são coisas, objetos que podem ser nomeados. São processos. Os nomes não existem, ainda que simulemos que existam. Não existe o amor; existe o amar.
O amar que existe entre todos os amantes existe entre tudo. Entre pedra e pedra, entre a neblina e a montanha, entre a água e a Lua. Os amantes o chamam amor; os sábios o chamam Tao. Por ele correm os rios nos vales, brota o verdor da semente, se unem e se separam o macho e a fêmea.
O impulso que está em todas as partes é igual ao impulso que está em cada coisa. O impulso que aproxima o homem e a mulher é o mesmo que aproxima a raiz e a flor; a folha e a terra, o alento e o vento. Homem e mulher se unem como o ar e a neblina, como a chuva e o rio, como a montanha e o vale. Formam parte do profundo comum. Cada impulso particular consuma o impulso global; cada coisa consuma todas as demais. Conhecendo isso, cada coisa em particular e tudo em geral deixam de ser ordinários e passam a ser honrados como extraordinários.
Honrar significa situarmo-nos dentro da totalidade movente e entregarmo-nos a ela. Somente desde dentro pode haver controle, mas os amantes, como os sábios, sabem que os seus não são controles.
Aqui radica o paradoxo: amar significa perder para encontrar; ficar sem poder ao estar dentro do poder.
Não usamos aqui a palavra "poder" no sentido ocidental, mas sim no Taoísta. É o"Te" de Tao Te Ching, livro de Lao Tsé,do séc. V a. C. Poderíamos chamá-lo "virtude". Significa concordar com a maneira em que opera o universo (o Tao) e adquirir assim um sentido de poder não ligado ao eu, um poder que não vem de opor-seàs coisas, mas de fluir com elas. "Confluir"é a virtude, "con-ser" é o poder.
O importante é o equilíbrio entre a virtude/poder do homem e a virtude/poder da mulher, com o propósito de encontrar a virtude/poder do homem/mulher. A política sexual a desviou de seu curso, perverteu-a e adulterou-a, mas segue presente como força primordial que confirma que entre o homem e a mulher se produz uma alimentação energética, assim como a interação polar do yin e do yang cria a dança que é o Tão.
Até a obsessividade sexual do Ocidente traz benefícios potenciais, mas o materialismo científico, o comercialismo e a publicidade que caracterizam grande parte de nossa cultura não ajudam a obter essa sensível inteligência que se necessita para ser um amante sábio.
Procuramos, com uma atitude empírica e objetiva, separamo-nos do todo, mas não podemos. A sexualidade nos enraíza. O amar, com toda a sua subjetividade, se torna tão mais tentador quanto mais nos esforçamos por sermos objetivos. Amar é a promessa que fizemos a nós mesmos e que devemos cumprir, mas ao comercializar o sexo como uma mercadoria, acabamos por transformá-lo numa busca espiritual desconcertante. Os amantes não podem ser cada um o objeto do outro: nenhum envelope é capaz de envolver o mistério.
Vivemos numa superficialidade provocada por nosso próprio engenho. Fartos de sensações, estamos famintos de sentimentos. Sabemos que nos vendem sombras elegantes, mas também sabemos que nós não podemos nos vender a nós mesmos. É certo também que debaixo de nossa coqueteria sexual há uma fina camada de gelo (a moda requer que caminhemos com cuidadosa afetação...). |